Wladimir Crippa, Secretário de Comunicação do PCdoB SC, com
colaborações de Maria Elisa Iwaya, Secretária de Organização do PCdoB de Joinville
Ética
Faz tempo que tenho a intenção de socializar com as pessoas que partilham da mesma visão de mundo que eu - ainda que não seja, obviamente, exatamente a mesma visão, mas que possuem mais afinidades com o que desejo para a sociedade - uma série de opiniões, conceitos, valores que entendo serem importantes para compor aquilo que chamamos de militante socialista ou comunista.
Um destes valores, que para mim é um valor essencial, fundante do modo de agir de cada indivíduo, é a questão ética.
Valor basilar, que determina o comportamento dentro e fora do partido, no sindicato, no grêmio estudantil, centro acadêmico, em cargos públicos no legislativo ou no executivo. Eu diria que o indivíduo se define pela sua ética. Falar sobre ética pode ser delicado. Mas é importante realizar esta discussão.
Não somos santos nem santas. Erramos diariamente. Mas esses erros não podem ser usados para não se realizar o debate. Ainda que venham a ser cometidos erros, temos que ter noções claras a respeito do que pensamos sobre a ética.
Historicamente, se justificam deslizes éticos pelas "condições objetivas", "necessidades históricas" e coisas do tipo. Assim se justifica, por exemplo, o chamado "mensalão". Assim se justificam também golpes e tentativas de golpes em eleições nos movimentos sociais. Assim se justificaram políticas autoritárias nos países socialistas.
Essa é uma tradição que presenciamos na direita e na esquerda também. Uma lógica que encontra abrigo em mentes de todas as matizes ideológicas. Estou profundamente convencido que é preciso estabelecer um claro referencial ético, que nos distinga principalmente do senso comum estabelecido em relação à atividade pública.
O Partido dos Trabalhadores, durante a maior parte de sua existência, constituiu-se e firmou essa ideia no imaginário popular como um partido correto, justo, ético. Não há dúvida que esse fator pesou muito na obtenção de suas vitórias eleitorais.
Hoje, a percepção que as pessoas têm do PT não é mais a mesma. Mas esse continua sendo um tema muito importante.
Não vou falar do enorme desprezo com que o pensamento de direita considera esta questão. Ainda que diariamente seus meios de comunicação tentem se vender como "guardiões da moral, da ética e dos bons costumes", tratam o tema de forma absolutamente instrumentalizada. Suas intenções são apenas atacar, difamar, agredir, mobilizar a opinião pública contra o projeto democrático e popular que está no Estado brasileiro.
Na história do Brasil e do mundo, sempre que foi necessário para manter seus privilégios e sua condição no poder, não vacilaram em golpear, destituir governos, perseguir, torturar, assassinar, revogar direitos e queimar constituições. Em todas estas situações, as ações de resistência das forças democráticas, socialistas, comunistas, foram éticamente justificadas.
Queremos construir uma nova hegemonia na sociedade. Queremos que os valores que consideramos mais abrangentes, mais justos, que podem estabelecer uma melhor relação entre as pessoas, sejam os valores dominantes. E serão valores válidos para todas as pessoas - não apenas para aquelas que concordem com o que achamos melhor.
Nossa intenção de construir um sistema mais avançado, justo, democrático, precisa ser construído também de forma éticamente justificada. Isso vale para nossa atuação na sociedade, mas também nas relações internas do Partido Comunista do Brasil.
Infelizmente, práticas danosas ao Partido encontram ainda espaço entre os e as comunistas. A "fofoca", a "queimação" de camaradas sem direito à defesa (e, pior, muitas vezes sem a pessoa tomar conhecimento), as palavras ditas pela metade, a omissão, a falta de sinceridade, a mentira, o não-encaminhamento de decisões partidárias, o exercício de poder a partir da ocupação de determinados espaços dentro da estrutura partidária, precisam ser permanentemente combatidos.
As instâncias partidárias precisam ser os espaços de construção da política partidária, e não reuniões em outros espaços informais. Falar em fortalecimento do Partido é falar do fortalecimento de seus órgãos de discussão e deliberação. Ainda que as comissões políticas sejam instâncias legítimas para a tomada de decisões, os debates devem ser privilegiados nos comitês municipais e no comitê estadual.
A força do PCdoB reside no coletivo e na sua unidade. Unidade que apenas pode ser construída de forma coletiva. Construída dentro de relações políticas e éticas. O partido que distancia-se de sua base, que deixa de discutir e encaminhar suas ações por meio do exercício da democracia, perde o que tem de mais precioso, o que o diferencia entre tantos partidos presentes em nosso país. Ao perder a confiança em nossos/as camaradas (dirigentes ou militantes) corremos o risco de esquecer, aos poucos, o valor que buscávamos no momento em que procuramos o Partido Comunista do Brasil como espaço de atuação.
Todo aquele/a que buscar atuar na vida pública, deve ter clareza de que apenas construímos uma sociedade mais justa e igualitária se agirmos com a mesma justiça e igualdade, com todos/as que nos cercam. Se "a prática é o critério da verdade", como nos lembrava Lenin, que esta busque sempre estar de acordo com o que teoricamente defendemos. Só poderemos sonhar com a construção de um novo modelo, se não assimilarmos os velhos hábitos que criticamos no modelo atual (tal como a mentira, o nepotismo, o favorecimento ilícito, a corrupção).
Este texto não tem a pretensão de buscar fórmulas e receitas de como agir éticamente, ele ocupa-se de trazer à tona esta discussão, considerando que em momento algum tal tema deva ser abandonado.
Florianópolis/Joinville, 6 de fevereiro de 2011.