Ontem, dia 28 de fevereiro, foi o prazo final para o envio de textos para a Tribuna de Debates do
site do PCdoB, criada para discutir a 1ª Conferência Nacional da Questão da Mulher. Cada militante poderia enviar até dois textos para contribuir com o debate, e, portanto, enviei ontem minha segunda colaboração.
Segue abaixo o texto enviado.
Saudações comunistas e feministas!
Não há Socialismo sem FeminismoPelo menos não da forma que eu imagino que deva ser o socialismo: com uma radical participação de todos, com o aprofundamento da democracia, a sua radicalização levada aos extremos; com a garantia dos serviços e direitos básicos para todos; com uma economia que garanta a todos uma renda digna, capaz de suprir as necessidades básicas objetivas e também os desejos subjetivos de cada um, e tantas outras mudanças que acalentamos em nossos sonhos sonhados por numerosas e generosas multidões de camaradas em todas as partes do
mundo.
Mas sabemos que o socialismo não se restringe a um sistema político e econômico. Ele é também uma revolução na moral, na ética, nos costumes, nas relações entre os homens, mulheres, jovens, crianças e idosos.
Esta revolução nos valores é vital para o processo revolucionário. O grau de consciência e compromisso da maioria com os novos valores - da solidariedade, do pacifismo, do compromisso ambiental, da intolerância com o racismo, com a discriminação por orientação sexual, de gênero, opção religiosa, enfim, qualquer tipo de preconceito – é que determinará em grande medida o sucesso da sociedade socialista.
Se no socialismo reproduzirmos os mesmos valores do capitalismo, podem ter certeza: o “novo” sistema não será de fato novo, e estará se condenando à sua superação.
Por isso saúdo como acertadíssima a decisão da direção nacional em tratar a questão da mulher como uma questão de partido. De todo o partido. Na tradição das organizações de esquerda, a questão da mulher sempre foi debatida somente por elas próprias. Como se fosse algo que não interessasse a todos (e de fato, para muitas das organizações não interessava mesmo). Muitas
vezes vimos a questão da mulher ser utilizada como um “atrativo” de determinado grupo, para atrair militantes para sua organização. Mas sem existir de fato um compromisso teórico e prático com a luta emancipacionista da mulher.
A necessidade de discutir as questões levantadas pelo movimento feminista se impõem hoje a nós, não apenas pela questão objetiva de que elas, hoje, são maioria em nosso país, têm um papel fundamental na economia nacional e, em muitos casos, são os pilares econômicos de suas famílias. Impõe-se discutir a questão da mulher porque queremos construir uma sociedade socialista junto com as mulheres. Queremos que elas sejam partícipes, desde a elaboração teórica e programática, até o desenvolvimento dos processos políticos. E os camaradas já pararam para imaginar a imensidão de novas militantes que estarão atuando no partido, nos sindicatos, nas associações, nas entidades estudantis, a partir do momento em que consigamos romper esta barreira e trazer todo este contingente para a luta política?
Uma revolução pode ser feita apenas pelos homens. A história dá exemplos disso. Claro que podemos citar dezenas de mulheres que tiveram papéis importantes nestes processos revolucionários. Mas se é verdade que podemos citar dezenas de mulheres, podemos também
citar centenas, milhares de homens. Quantas guerrilheiras haviam entre os liderados por Fidel, Che e Camilo? Além de Anita, que outra mulher lembramos no processo farroupilha? Não quero polemizar sobre esta questão, reconheço o valor destas mulheres. Mas o fato é que a atividade política sempre esteve dominada pelos homens. Isso de um modo geral, e de modo particular nas organizações de esquerda. Não que na direita elas tenham espaço. Longe disso! Mas é que na esquerda é onde esperaríamos que houvesse uma participação mais igualitária.
Embora eu creia que seja possível uma revolução ser dirigida majoritariamente pelos homens, não é isso que eu desejo. E sei que não é esse também o desejo dos camaradas. Não acredito em um processo que, no seu desenvolvimento, já exclua as mulheres, jovens, negros, depois de “vitorioso” vá reverter essa tendência e desembocar em uma sociedade de fato nova e
alicerçada nos novos valores.
Os meios, os caminhos escolhidos, determinam sim em grande medida como será o fim. E os fins, por mais generosos que sejam, não justificam os meios.
Por isso, estamos diante de uma discussão importantíssima. Ouso dizer que é a discussão mais
importante que estamos realizando neste ano. E que certamente irá requerer ainda mais debates entre nós.
Hegel disse que nada de grandioso se faz sem a paixão. Se esta afirmação é válida para os projetos políticos, mais válido ainda é combinarmos esta paixão pela revolução com a paixão por nossas camaradas e, juntos, lutarmos apaixonadamente pela construção da nossa utopia.